Gosto da calma. Do controlo, da previsibilidade. E gosto quando tudo isto é quebrado de repente, da imprevisibilidade de um convite, de uma palavra diferente.
Nesse dia estava tranquilamente em casa, a saborear um gin tónico gentilmente preparado por um companheiro, quando recebo uma mensagem. Ela estava no Património, na zona VIP, com alguns colegas de curso. Não mais os vi, já passaram alguns meses. Não contava sair, sei que demorei bastante tempo, mas lá sugeri que fossemos beber uma cerveja à baixa. Nada fazia prever que a noite encerrasse tão grandes e insondáveis mistérios. Muito menos uma noite que se esperava de calma reflexão ou simplesmente de um qualquer filme mundano.
Disse-lhe boa noite, abracei-a.. E falamos. Não sei de quê, tenho a certeza que não era relevante, e no entanto, lembro-me do meu sorriso parvo na cara. Sei que falamos muito. Sei que olhei para ela como nunca o tinha feito até então. Mas sei também que não a cobicei, não a vi como uma conquista, um troféu. Apenas a vi com um brilho especial, quiçá mais próxima de mim do que esperava.
Há que dizer que eu não danço. Considero-me pé-de-chumbo e, embora seja filho de um músico e de uma dançarina incuráveis, a dança nunca foi o meu forte. E nem a naturalidade de agarrar uma rapariga para dançar. Os momentos em que os meus pés abandonavam o chão eram apenas indulgências de quando a minha mãe rodopiava comigo, sorridente, tentando talvez contagiar-me com os dons de Shiva. Sem grande sucesso, diga-se.
Lembro-me que a proximidade da dança, e mais ainda, Kizomba, foi tão natural como inesperada... Como se os nossos corpos se encaixassem, carentes de 20 anos em que nunca tal tinham sentido. Senti que de facto a dança fluía, e parecia que flutuavamos agarrados um ao outro. Ambos com uma timidez indisfarçável, em silêncio, como se houvesse a noção do quão especial era aquele momento.
Somos adolescentes. Temos as hormonas aos saltos. E no entanto, o desejo naquele momento era que a música nunca acabasse, e não que a dança se transformasse noutra coisa. Os cabelos suaves dela na minha face, o toque suave da roupa dela na minha mão, o calor que emanava do contacto entre os dois, a mão quente dela na minha... Tudo isto me inebriava, me deixava nas nuvens. Lembro-me do sorriso do Lud, como se conseguisse ver o quão feliz eu estava, sem razões aparentes. Lembro-me de pensar para mim mesmo "Será que se esta felicidade nota assim tanto? E de onde vem esta felicidade?"
Lembro-me de caminhar pelo bar de mão dada com ela, e lembro-me de prolongar esse contacto tanto quanto podia, sem mesmo saber porquê. Sentia-me tão bem..... Lembro-me que os colegas dela elogiaram a nossa dança, e comentaram que ficavamos "muito fofinhos juntos".
Os dias seguintes voaram. Outras saídas se sucederam, e lembro-me de haver sempre uma palavra terna um para o outro, um olhar.. Lembro-me dos dedos suaves no meu braço, sem razão aparente. Acho que só aí dei conta do quão perto a queria, do quão importante ela era, do quanto queria que aqueles toques, aquelas sensações, se prolongassem. Lembro-me de esperar pela camioneta para o Porto com a companhia dela, e de pela primeira vez desejar que ela se atrasasse. Tempo. Só mais um minuto, mais um segundo!
Começava a ficar curioso com a natureza do fascinio mútuo, que me ocupava a cabeça e me punha um sorriso de criança feliz nos lábios. Começava a fazer-me todas aquelas perguntas míticas que todos já fizemos a nós próprios.. Começava a tentar racionalizar tudo.
Por vezes, os momentos e as mudanças mais épicas da nossa vida acontecem quando menos as esperamos. Esta veio quando eu, deitado no chão, brincava com uma pequena felina doméstica chamada Nikita, pela posse de uma bola de fita-cola de uma qualquer embalagem.
"Eu quero dizer-te uma coisa..."
"Diz..."
"Não te vais chatear comigo?"
"Claro que não.. Que se passa?" *Longa espera*
"Eu gosto mesmo de ti Miguel. Eu não consigo estar com mais ninguém porque é de ti que eu gosto"
Esta troca de mensagens significava confusões, problemas, incertezas, e uma volta enorme na minha vida. Borboletas no estômago? Eu sentia o Etna em erupção! E no entanto, o sorriso parvo e olhar inebriado instalavam-se outra vez... Estava feliz. Nunca tinha esperado que isto pudesse acontecer. Estava feliz. Ela sempre pareceu tão longe, e ao mesmo tempo tão perfeita...
Feliz.
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
Ela.
Gosto dela. Não sei bem desde quando, mas gosto. Aquece-me o
coração quando ela sorri, quando aqueles olhos tão expressivos cintilam. Mexe
comigo, derrete-me até.
Desde o início que gostava de conversar com ela.
Suscitava-me curiosidade… A curiosidade é sempre o percursor do amor. Na
verdade, é também o percursor de muitas outras coisas que não são amor. Menos
do ódio… Por norma o ódio é precisamente a ausência de curiosidade sobre a
motivação de outra pessoa. Alas, I
digress… Ela fazia-me querer mantê-la a falar. Arranjar assuntos,
pretextos, comentários, perguntas… e quando demorava, lembrava-me do grão de
areia que era na vida dela. E porque raio queria eu ser mais? Nunca descobri.
De volta a Faro, quem diria… Timído, sem querer mostrar o
ser aborrecido que sou, escolhi o Forum. E quem esperaria que nenhuma loja
fosse visitada nesse dia? Apenas uma looonga conversa. Lembro-me da roupa dela
nesse dia. Dos cigarros… Que personagem tão diferente do meu mundo. Nada a ver
mesmo. E no entanto… She’s got the look, she’s got the act.. Encontro-a no dia
seguinte. Bom dia, business as usual.. E uns bons dias sem nos vermos, até a um aleatório peddy
paper..
O meu ser, trajado, digníssimo representante da tradição académica,
rodeado por 4 adoráveis bestinhas, duas delas minhas futuras afilhadas. Já só de colete, o calor apertava.. E de repente, ao virar de uma
esquina, encontro-a. Vestida de uma forma tão simples, só mesmo a praxe a podia pôr assim. E no entanto aquele brilho nos olhos, aquele encanto.. Damn..
Brinquei, piquei-a. Ia apresenta-la às minhas bestas, mas ela pediu-me.. Aquela
timidez tão disfarçada, tão única. Acedi.
Um dia, bebia o meu adorável Bombay Sapphire com o meu colega de casa, e recebo uma
sms…
Continua…
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